A BÍBLIA DA NEGOCIAÇÃO

Como diria Nietzsche: ”É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”.

Preparar, Apontar, VENDA!

Eu tinha 11 anos e adorava aquele campinho de futebol.

Ele ficava localizado em uma praça pública (abandonada) e rodeada por vários condomínios de prédios. O campinho era daqueles de terra batida e com quase nenhuma grama. A marcação das laterais era feita com os pés mesmo e as traves eram de madeira velha, o gol nem rede tinha.

O campinho era democrático, não exista nem pobre , nem rico, todas as classes estavam ali por um motivo: jogar bola.

Acontece que o campinho era insuportavelmente concorrido, garotos de outros condomínios mais distantes também o frequentavam. Não recordo um ÚNICO DIA que não acontecesse algum tipo de confusão.

Era mais ou menos assim: a galera da quadra 2 brigava com a galera da quadra 9, os caras da rua da bosta ( sim , esse era o nome da rua), também queriam o seu quinhão – e nós , na época os pequeninos, ficávamos com o resto, muitas vezes cheguei a jogar no campinho naquele sol maneiro de 1h da tarde….

Os melhores horários sempre ficavam com os mais velhos, eles ditavam as regras, o problema era que outros grupos de adultos também queriam esse melhor horário, resultado? Porrada, tiro e bomba.

Lembro claramente daquela sexta-feira, minha turma e eu tivemos sorte, era por volta das 16:30h , horário bem difícil da gente pegar, mas milagrosamente nesse dia os caras da rua bosta não apareceram.

Começamos a jogar bola e nesse dia o campo estava estupendo, mesmo sendo de terra batida e pouca grama, naquele dia ele estava perfeitinho para se desenvolver o bom futebol.

Trinta minutos de jogo havia se passado, quando de repente, uma turma com uns 12 adultos de outra quadra chegaram no campinho cheios de moral, eles foram truculentos e logo gritaram: ACABOU! ACABOU! Agora é a vez dos homens, menino vai pra casa…

Naquela época, homens de vinte e poucos anos pareciam nossos pais.

Os moleques foram desistindo do jogo, alguns correram no primeiro grito, mas eu resisti fazendo cara de mau.

Peguei uma pedra e esbravejei: porra nenhuma! Eu não vou sair daqui. Não demorou muito e levei uma tapa na cabeça de um deles.... Sempre fui valente, mas nunca fui burro, não tinha como enfrentar tantos adultos. Larguei a pedra no chão e sai com o rabinho entre as pernas.

A raiva tomou conta de mim, aquilo era injusto, eles nem esperaram a gente terminar a partida, eu estava jogando tão bem, dando dribles desconcertantes (tudo bem , aumentei essa parte), mas enfim , sabe quando  a gente tem um dia glorioso? 

Dentro de mim nascia uma verdadeira IRA, uma espécie de cólera do dragão... Eu estava me sentindo no filme AVATAR, quando o exército invade meu planeta e ainda corta minha árvore favorita.

SABE O QUE EU FIZ PARA SALVAR MEU PLANETA?

EU O DESTRUI.

Naquele mesmo dia, na calada da noite, pois não havia iluminação nenhuma em volta do campinho, eu arquitetei meu plano maligno.

Como um verdadeiro psicopata, passei horas coletando VIDROS, PAUS e PEDRAS no entorno do campinho e em todas as lixeiras disponíveis. Quebrei tudo, transformando-os em entulhos e espalhei-os por todo o campo, não havia um único metro quadrado que não tivesse um vidro quebrado.

Ainda ensandecido com os olhos em brasa e espumando pela boca (ok, exagerei de novo), peguei dois pneus velhos , joguei no campo e ateei fogo, aquelas chamas representaram pra mim um fim de um ciclo, uma espécie de enterro simbólico da cidade de ROMA, ou melhor, do meu campinho preferido. 

Acabei a noite exausto, mas com sentimento de dever cumprido, eu havia implantando o CAOS em algo que já estava absolutamente sem controle.

Os conflitos entre os grupos até então nunca haviam produzido resultados satisfatórios, pois todos se sentiam donos , mas ninguém agia como tal.

E o que aconteceu ?

No outro dia, ainda com o cheiro fétido dos pneus queimados, eu fiquei sentado de camarote esperando os grupos chegarem animados pra jogar.

Eles foram chegando e ao ver aquela cena da 2º guerra mundial, simplesmente ficavam congelados. Seus rostos atônitos e suas expressões de incredulidade soavam como um colírio para os meus olhos.

Eles ficavam circulando em volta do campo, como se tentassem achar uma saída, mas a destruição era tamanha, que seria impossível jogar naquele dia. Não existia a mínima condição humana de retirar todo aquele entulho.

No 3º dia sem futebol, os grupos ainda esperavam que alguém dentre os grupos  tivesse a coragem de limpar o campinho, mas isso não aconteceu.

Apenas no 5º dia, os valentões dos condomínios, das quadras vizinhas e o pessoal da rua da bosta se juntaram para FAZER A MAIOR ASSEPISIA EM UM CAMPINHO DE TERRA BATIDA QUE A HISTÓRIA DA HUMANIDADE TEM REGISTRO.

Após a limpeza, inacreditavelmente , os líderes tiveram a justíssima ideia de fazer um CALENDÁRIO COM DIAS E HORÁRIOS PARA TODOS, até nós (os pivetes), conseguimos um dia com horário bacana pra jogar.

Os líderes também fizeram uma vaquinha e marcações de cal foram compradas, além de reforma na traves e redes. Também compraram algumas carroças de areia para deixar o campinho ainda mais alinhado.

O CAOS salvou o meu campinho de infância.

Por mais estranho e controverso que pareça, IMPLANTAR O CAOS pode ser algo benéfico para qualquer instituição. 

Como diria Nietzsche: ”É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”.

Muitas empresas, equipes e indivíduos vivem estagnados, seja por falta de visão ou mesmo por comodidade. Eles estão em um ciclo vicioso enfrentando diariamente os mesmos problemas, falhas e crises - e como o ser humano é adaptável, acabamos tolerando certos níveis de sofrimento.

Lembro de um chefe que passou três anos enfrentando os mesmos problemas com o departamento de logística. Quando o gerente da fábrica entrava na sala pra explicar o novo atraso da mercadoria, meu chefe já o recebia com aquele sorriso amarelo, como se dissesse: “lá vamos nós sofrer de novo”.

Segundos dados da FGV, 42% do tempo dos líderes é gasto resolvendo conflitos. É muito tempo resolvendo bronca, não é mesmo?

Só o desconforto crítico possibilita NOVAS ideias, conversas francas e soluções laterais, SÓ o conflito insuportável tira as pessoas da zona de conforto, SÓ o caos extremo faz com que todos coloquem a mão na massa em busca de uma NOVA VISÃO sobre as coisas de sempre.

Fabricio, e o que aconteceu com o campinho ao longo desses anos?

A prefeitura acabou com o campinho e reformou o local transformando-o em uma praça de convivência.

Para minha surpresa, colocaram uma bíblia em forma de pedra justamente no mesmo local ficava o centro do campo, logo os moradores lhe deram um nome sugestivo: PRAÇA DA BÍBLIA!

Até hoje, quando estou dirigindo com alguém e passo por essa praça eu falo assim: sabe a tal da praça da BÍBLIA ?

-  Sim, sei…

Bem, fui eu que escrevi o CAPÍTULO do APOCALIPSE!

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